Você comete um erro pequeno e, em segundos, uma voz interna já está lá: "de novo isso?", "você devia ter feito melhor", "que vergonha". Essa voz é o que chamamos de crítico interno. Para muitas mulheres, ela virou uma companhia tão constante que nem se percebe mais o quanto machuca.
A boa notícia é que dá para mudar a forma como você se relaciona com essa voz. E o caminho, talvez surpreendentemente, não é calá-la à força.
O que é o crítico interno?
O crítico interno é a parte da mente que avalia, julga e cobra tudo o que você faz. Ele aparece como pensamentos automáticos, quase sempre em segunda pessoa ("você não dá conta"), e costuma ser mais duro justamente nos momentos em que você já está mais fragilizada.
Ele não é um defeito seu, nem sinal de que há algo errado com você. É um padrão aprendido, muitas vezes ao longo de anos, a partir de experiências, comparações e cobranças que você foi absorvendo.
Por que ele existe (e por que brigar não funciona)
Por mais cruel que soe, o crítico interno costuma ter uma intenção de fundo: tentar te proteger. Ele acredita que, se te cobrar o suficiente, você vai se esforçar mais, evitar erros e não ser rejeitada. Na Terapia Focada na Compaixão, isso é entendido como o nosso sistema de ameaça assumindo o comando: ele dispara para nos manter em segurança, mas, em excesso, vive nos colocando em alerta.
O problema é que tentar brigar com essa voz, mandar que ela fique quieta ou se convencer de que ela está errada, costuma ter o efeito contrário. É como jogar combustível no fogo: quanto mais você luta contra uma parte de você, mais tensão interna se cria.
3 passos para lidar com o crítico interno
1. Perceber a voz
Você não consegue mudar uma dinâmica enquanto está completamente dentro dela. O primeiro passo é reconhecer quando o crítico aparece e o que ele diz. Só nomear "essa é a minha voz crítica" já cria um pequeno espaço entre você e o pensamento.
2. Separar a dor do ataque
Quando algo dá errado, costumam existir duas coisas ao mesmo tempo: a dor ("estou frustrada, estou com medo") e o ataque ("como eu pude ser tão idiota?"). Aprender a separar as duas muda tudo. Você pode sentir a dor de um erro sem transformar esse erro em prova de que você não presta.
3. Responder a partir do seu eu compassivo
Com algum espaço entre você e a voz, surge uma escolha que antes quase não existia: como você quer responder a si mesma? Às vezes é acolher, às vezes descansar, às vezes reconhecer "eu errei e preciso corrigir isso". Compaixão não é passar a mão na própria cabeça: é conseguir fazer o que precisa ser feito sem se atacar no processo.
Como saber se o crítico está no comando
Alguns sinais de que a autocrítica anda conduzindo o seu dia a dia:
- Um erro pequeno faz você duvidar do seu valor como um todo
- Você revive discussões e situações por dias, pensando no que deveria ter dito
- Descanso só parece permitido depois de "merecer"
- Elogios escorregam, mas as críticas grudam
Autocrítica, autocompaixão e a Terapia Focada na Compaixão
A alternativa à autocrítica não é a permissividade, é a autocompaixão: tratar a si mesma com o mesmo cuidado que você ofereceria a alguém que ama, sem abrir mão da responsabilidade. Se quiser se aprofundar, veja os três componentes da autocompaixão.
Esse é justamente o foco da Terapia Focada na Compaixão, abordagem desenvolvida pelo psicólogo britânico Paul Gilbert, que ajuda a treinar, de forma concreta, uma relação mais segura e menos dura consigo mesma.